quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

a bicicleta

Estás a ver aquela bicicleta à chuva? É o que me resta de ti.
Andas nela de manhã antes do almoço e depois à tardinha quando o sol começa a pregar partidas e a luz parece rarefeita, um acaso de cores. Dizes que vais ver o que se passa no mundo. E o mundo tem três quarteirões, uma praça, um coreto com ferrugem mas ainda assim a dar graça às casas que o espreitam e ouvem a banda no dia da vila. As festas, em Setembro, são dias felizes, cheios de pequenas azáfamas que nos dão sentido e tu sais a correr e voltas com os sacos de pão, legumes e frutas. Fazes compotas e camas. As visitas espalham-se pela casa e tu, devagarinho, como uma gata carente ronronas

Não faz mal, pois não? Não te importas, pois não?

E eu, nada. Aqui quieto fico a ver a dança das visitas, as gargalhadas, as caixas com bolinhos que são como uma despedida. Consigo ver de quem gostas mais pela quantidade de comida que ofereces. És generosa. Sofres de generosidade. Um dia disse-o e tu

Ninguém sofre de generosidade.

E eu, nada. Como sempre. Aqui quieto a ouvir o silêncio da casa quando tu sais de bicicleta.

Sabíamos os dois que seria assim. Quando eu tinha 42 anos e tu 18 havia a graça do teu rir na desfaçatez de me considerar sério e eu bebia da tua energia com cuidado, mas de uma forma ávida. Eu que nunca fui adicto a nada, viciei-me em ti. Um amor vertiginoso. Mostrei-te o mundo e andámos por aí a espalhar o teu riso. Em Paris apareceste com o cabelo cortado à rapaz e tinhas na mão um enorme lápis de carvão. Disseste

Uma flor.

E eu vi uma flor, sabes?
Quando tu ficaste na casa de banho do quarto de hotel, num banho de imersão cheio de espuma, deixei a porta aberta para que pudesses ouvir-me ao telefone com a minha mulher, longe, longe, lá nos confins do Porto. Eu a dizer que em Paris fazia frio, que ainda não lhe tinha comprado nada, que não chegava na sexta-feira. A coisa complicara-se.
Quando saíste da casa de banho, em lingerie cinza e sapatos altos de verniz vermelho, a provocar, olhaste-me com desdém

A coisa complicou-se? Pois, é verdade, eu sou uma coisa e complicada.

Levei-te à Maison Blanche. Os telhados de Paris e todas as outras maravilhas. Mantiveste o teu pé entre as minhas pernas enquanto comias. Nunca quiseste discutir a minha mulher. Eu tentei dizer-te tantas coisas e tu, distraída, a brincar com a comida, a beber champagne com ligeireza. Sempre atenta ao movimento da sala, não me deixaste dizer o essencial.

Antes de a deixar há coisas que tenho de...

E tu que sim. E isto foi logo no primeiro mês, o amor ainda era apenas sexo. Voltei ao Porto em erupção de vontades e quando entrei em casa a ternura de um sorriso velho surpreendeu-me. A minha mulher esperava-me com flores frescas nos vasos, um piano a tocar, um cheiro tentador vindo da cozinha. Dei-lhe um colar e um lenço e ela riu-se, baixinho. Hoje penso que o riso dela era como uma vitória. Porque ela sabia. Claro que sabia. Não havia como não saber.
Tu eras tão saliente. O adjectivo tinha sido proferido a meio de um jantar, casais amigos e, de súbito, o teu nome, o teu fantasma e o tal adjectivo. Não reagi bem. E foi nessa reacção viril e de defesa que começou a batalha pela liberdade. Ela a dizer que eu não precisava de te defender. Eu a dizer que sim. Ela a querer saber porquê e eu a estoirar, como um vulcão acidentado, eu a dizer

Porque a amo.

Desde quando?

Desde que aquele imbecil lhe chamou saliente. Dantes era só sexo, agora é amor. A partir de agora.

E a partir dali, daquele agora, começou a nossa vida. Eu cheguei ao teu T1 com uma mala de mão e uma garrafa de whisky. Não havia flores frescas, nem piano, nem comida no frigorífico. Estavas tu, pronta para me receber, sem nenhuma pergunta. Tu a estender-me um copo de vidro baixo e a saber

Queres com gelo?

Podia ter sido assim só, mas a vida atropelou-nos e durou dois dias. Voltei para casa. A minha mulher, em desespero, atentou contra a sua existência sem a elegância das boas famílias.
Nunca mais te vi. Um telefonema, uma mensagem curta. Nada de especial. Anos de vazio. Um dia, pelo natal, perguntaste ao telefone

Estamos bem, tu e eu? Quer dizer, ainda gostas de mim?

Se tu soubesses...

Tinham passado quase 20 anos. Na primavera a minha mulher deixou-me e fugi para a casa perto da Póvoa de Varzim a ver se o vento poveiro me levava. No dia seguinte lá estavas tu, duas malas e um sorriso imenso. Já não tinhas 18 anos. Eu já não tinha 42. Desta vez fui eu que perguntei

Queres com gelo?

Desistimos de tudo ou quase tudo para ficar aqui, na vila, perto do mar. Cheios de livros e coisas. Eu quieto, tu a ver o mundo de bicicleta.
Há uma semana encontrei-te estendida no chão da cozinha. A tua morte surpreendeu-me. Pareceu-me uma partida de mau gosto. Tu dirias

A coisa complicou-se.

Agora resta-me a visão da tua bicicleta.

Um comentário:

Inês disse...

Bela história, belo blogue. Parabéns!

Se eu fosse gajo e me chamasse Yeats escrevia este poema para ti:


When you are old and grey and full of sleep,/
And nodding by the fire, take down this book,/
And slowly read, and dream of the soft look/
Your eyes had once, and of their shadows deep;/
How many loved your moments of glad grace,/
And loved your beauty with love false or true,/
But one man loved the pilgrim Soul in you,/
And loved the sorrows of your changing face;/
And bending down beside the glowing bars,/
Murmur, a little sadly, how Love fled/
And paced upon the mountains overhead/
And hid his face amid a crowd of stars.

beijos, Inês