sábado, 5 de abril de 2008

a mudança

Os caixotes empilhados à porta têm lixo. Os caixotes que atrapalham a circulação dentro do apartamento, e que parecem engolir tudo, são para desmanchar, verificar os contéudos, arrumar.
Mudar de casa é descobrir-nos inúteis dentro de um caixote.
Quem somos? de onde fomos? quando é fomos isto que agora nos sobra? Tanto papel e memória de horas que já não sabemos, tanto de nós que deixou de ter qualquer importância.

Mudar de casa é isso - só isso - um espelho atroz do que já nem nos recordemos de ter sido.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

agora mesmo

Agora mesmo a criança suspirou no berço.
Está calor no quarto, a mãe tenta manter-se calma, o pai palra com entusiasmo.
A criança tem dias.
Dorme no berço mínimo.
Ainda sabe tudo sobre o mundo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

o piano

O miúdo está de costas. A professora ao seu lado.
Tocam um tango antigo, desses que conhecemos sempre.
Cumparsita, esclarece a pauta no piano.
O miúdo toca, as costas magras, os cotovelos encostados ao tronco, como se montasse a cavalo. A professora acompanha com o pé, discreta, sem fazer barulho. Quando chegam ao fim, recomeçam.
Se fecharmos os olhos podemos ver Buenos Aires daqui. Em Lisboa fazem 26 graus e estamos em Abril. O miúdo desliza os dedos nas teclas brancas e pretas, concentrado. Há uma súbita vontade de dançar.

- Outra vez - pede a professora.

O miúdo obedece. A noite vai cair não tarda.
Gostava de ficar aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ontem no lux

O escritor disse:

- Deixa-o. Por favor. Não suporto ver uma portuguesa feliz.

Na penumbra ruidosa do evento a frase escapou-se e perdeu-se.
É pena.

terça-feira, 1 de abril de 2008

a balsa II

Hoje a bolsa está carregada.
Vejam como desliza, suave, no mar da lagoa.
Há algo invejável no movimento. Percebem?

segunda-feira, 31 de março de 2008

a balsa

A balsa tem um nome estranho, fora do sítio: extraterrestre III. Observo-a todos os dias. Leva as pessoas das margens da lagoa, ali onde o mar espreita já.
Dizem que os golfinhos entram por aqui.
Vejo-os uma manhã, recortes escuros no mar, dorsos que correspondem ao nosso imaginário.
Estar de férias é isso: uma sombra de paz, uma ideia que construímos de sossego e outros desvios ao caminho.
Não queria voltar para casa à beira do rio.
Prefiria ficar a ver a balsa a ir, devagar, evitando o remoinho e as correntes.
A balsa que se chama extraterrestre III.

quarta-feira, 12 de março de 2008

falta a apenas o tempo


Maryln por Bert Stein.Vi a exposição no Rio de Janeiro. Estava com a minha mãe. Era um dia de sol. Havia risos e coisas boas. A vida real a cores não existia. Só eu e ela, a subir o bondinho, a beber vitamina de abacate, a cortar na casaca, a medir roupa de homem, a comprar livros. Dias por censurar.